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04 de setembro de 2013

Artigo - A luta pela anistia, ampla, geral e irrestrita em Campina Grande - Parte 04

Wagner Braga Batista


A luta pela anistia, ampla, geral e irrestrita em Campina Grande: A caravana de cantadores, de repentistas e de emboladores de coco (parte 4)


 

A luta pela anistia ganhara densidade crítica, porém ainda era desconhecida de grande parte da população.

Ao longo do ano de 1978, em paralelo à fundamentação política da luta pela anistia, enfrentávamos o dificil desafio de torná-la acessível à população. De transpor os limites de instituições que se mostravam sensiveis a esta causa para ganhar as ruas e obter apoio de contingentes populacionais que desconheciam o significado da anistia.

Esta diretriz se expressava pela necessidade de popularizar a defesa da anistia ampla, geral e irrestrita.

Para difundir e popularizar a campanha foram produzidos vários materiais, entre os quais, chapéus de vaqueiro, camisas, cartazes, chaveiros, calendários de bolsos, entre outros artefatos, que eram vendidos ou distribuidos, com a finalidade de obter recursos financeiros e apoios explicitos.

A maior parte destes materiais era produzida artesanalmente, graças ao trabalho de militantes. Eram realizados mutirões, em nossos domicílios e algumas vezes no amplo saguão do Diretório Estudantil 11 de Agosto, durante a madrugada.

Os chapéus de vaqueiros rendiam fotos de personalidades que aderiam à luta pela anistia. Também foram impressos vários tipos de camisas com imagens alusivas à luta pela anistia. Deste modo, a paixão futebolistica também foi canalizada e incorporada à estratégia de popularização da luta pela anistia em Campina Grande.

Camisas rubronegras e alvinegras com estampas em prol da anistia ampla, geral e irrestrita vestiam transeuntes. De forma residual surgiam nas torcidas de times campinenses.

Deste modo, a anistia timidamente penetrava no Amigão e em campos de futebol.

Não só estabelecia identidades entre torcedores rivais, mas estimulava a concórdia entre as torcidas dos maiores times de Campina Grande, Treze e Campinense.

Um depoimento do Braulio Tavares é bastante sugestivo:

...lembro que tirei uma foto com Ivanildo, os dois vestindo a camiseta "Anistia ampla, geral e irrestrita", eu com a alvinegra (Treze) ele com a rubronegra (Campinense). Pagaria bem por essa foto hoje, mas a perdi há muitos anos.

Ações como estas produziam resultados, porém nenhuma destas iniciativas teve o alcance da caravana dos cantadores.

Um fato significativo na campanha pela popularização anistia foi a caravana de cantadores, repentistas e de emboladores de coco realizada entre janeiro e fevereiro de 1979.

Organizada por Giuseppe Baccaro, ex-marchand na cidade de São Paulo, que veio residir em Olinda, na década de 1970, e criaria uma instituição beneficiente, a Casa das Crianças de Olinda, destinada a atender meninos carentes que também dava pousada a artistas populares.

A partir daí, converteu-se em patrocinador da cultura popular.

A caravana, subvencionada com recursos do MEC, tinha como objetivo difundir a cultura popular pela voz de seus autores.

Coordenada por Braulio Tavares, assessorado por sua irmã, Ines Tavares, a caravana partira de Olinda, num onibus transportando cerca de 20 poetas populares.

Durante 26 dias, a caravana percorreu vários Estados do país, fazendo apresentações em 13 cidades, a saber, Olinda, Maceió, Aracaju, Salvador, Rio, São Paulo, Brasília, Belém, São Luís, Teresina, Fortaleza, Natal, João Pessoa e Recife.

Antes de da partida da caravana, cinco cantadores aderiram à campanha pela anistia: Ivanildo Vila Nova, Oliveira de Panelas, Sebastião Silva, Severino Feitosa e Geraldo Amancio.

Ivanildo e Oliveira, seguramente tinham consciência do que se tratava. Os demais se sensibilizaram com as informações que lhes prestávamos e também se prontificaram a mencionar a anistia em suas apresentações.

A partir daí, os cantadores é que deram o mote...

Este desfecho é fruto de um namoro lento. De aproximação que teve início no Festival dos Violeiros, realizado no final de 1978, na AABB, em Campina Grande, que tivemos a oportunidade de documentar fotograficamente com Roberto Coura.

Teve sequencia nas cantorias realizadas na casa do Sr Zebraz, pai de Tadeu Guimarães, à epoca dono do Café Sport, na Feira Central.

Desde então, em conversas informais, alimentávamos o imaginário destes poetas populares. Sempre que nos encontrávamos, via de regra no Bar do Genival, defronte ao Edifício Rique, faziámos comentários sobre a luta em defesa das liberdades democráticas, as violações de direitos humanos e o que representava a ditadura.

Antes da caravana, já tinhámos um ensaio da presteza, da versatilidade e do brilhantismo de alguns destes poetas, graças à apresentação realizada no Bar Canarinho, que já não mais existe, situado na Feira Central.

Nesta área, ainda hoje frequentada por pessoas pobres e marginalizadas, tivemos oportunidade de gravar cantoria em defesa da anistia, que também denunciava o regime militar e o desmatamento da amazonia.

As fitas foram reproduzidas por meio de aventura rocambolesca, em gravador Nagra, pertencente à militar da ativa, sem o seu conhecimento.

No início de 1979, as poucas gravações se espalharam pelo mundo afora, certamente causando muita satisfação a exilados políticos dotados de forte sentimento telúrico.

Aos motes populares, gradativamente, estavam sendo adicionados alguns temas eminentemente políticos.

Graças ao Braulio, que indicava temas e motes , os poetas versejavam sobre presos politicos, sobre suas lutas e sobre a exigência de liberdades democráticas.

Talvez tenham sido as primeiras manifestações publicas de apoio à anistia que alcançaram massas populares. Em praças e logradouros públicos, muitos populares, migrantes nordestinos, ouviam falar pela primeira vez da anistia.

Assim foi na Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro, e na Praça da Sé, em São Paulo.

Em São Paulo, os cantadores tiveram postura mais ousada. Na escadaria do Teatro Municipal, quando os cantadores versejavam cavalriços se aproximaram de forma intimidatória. Não se calaram. A polícia desligou o equipamento de som. Não interromperam a cantoria e de viva voz foram acompanhados pelo público presente, que impediu que silenciassem.

Por meio de reminiscencias, de manifestações de sua cultura nativa, milhares de nordestinos ouviam pela voz de seus poetas apelos que os identificavam com companheiros banidos e exilados, uma vez que talvez se sentissem assim, isolados e marginalizados em seu próprio país.

No Campo Grande, em Salvador, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, bem como em outros locais, também houve grande afluência de populares para ouvir os cantadores..

Em Olinda, antes da partida da caravana, ainda na Casa da Criança, involuntariamente, reporteres da TV Globo divulgaram a anistia. Possivelmente, tenha sido a primeira vez que a anistia era veiculada no programa dominical, ainda hoje chamado Fantástico.

Documentavam Ivanildo Vila Nova e Severino Feitosa, orgulhosamente apresentando-se com camisa em prol da anistia, ampla, geral e irrestrita, impressa pelo CBA de Campina Grande.

Passagem hilária ocorreu na Praça do Ferrreira, em Fortaleza, no Ceará.

No transcurso da viagem, bem sucedidas cantadas alçaram aquela desconhecida palavra à condição de declamada e decantada anistia.

A repercussão popular, o prestigio político e o acesso a algumas personalidades reconhecidas, porém afastadas da vida política, a exemplo de Ronaldo Cunha Lima, residente no Rio de Janeiro, presenteado com o chapéu de vaqueiro do CBA, de Campina Grande, certamente impressionaram vários integrantes da caravana.

Inês Tavares reporta-se à passagem dos cantadores pelo Rio de janeiro:

Minha memória é bem ruim, mas lembro de uma apresentação na CEU (Casa do Estudante Universitário) no Rio, cujo tema me parece que foi especificamente a Anistia. Lembro também de outra apresentação, para um público de intelectuais, na casa de Albino Pinheiro, onde estava presente Darcy Ribeiro.

Com apoio de militantes dos CBAs do Rio, de São Paulo, de Brasilia, do Ceará e do Rio Grande do Norte as cantorias se enraizavam, ramificavam-se e penetravam em diferentes segmentos sociais.

Poetas populares, oriundos de ambiente socioeconomico pouco familiarizado com esta temática, inicialmente viam-na com desconfiança. Aos poucos manifestavam curiosidade e simpatia por esta causa, que até então lhes era estranha.

Ao seu modo, passaram a proclamar sua adesão à causa.

Ouviam falar de repressão, de prisões, de tortura, entre tantas outras coisas, que atribuiam indistintamente à polícia.

No seu imaginário não havia distinção entre praticantes de atos hediondos e desavisados guardinhas que tomavam conta do quarteirão. Em sua ingenuidade, supunham que fosse tudo a mesma coisa, farinha do mesmo saco.

Graças a esta ingenua compreensão ocorreu o hilário incidente.

Dois emboladores de coco, integrantes da caravana, apresentavam-se na Praça do Ferreira, quando receberam voz de prisão.

O bafafá estava formado. Por trás das enormes caixas de som, utilizadas à época, dois PMs consumavam inusitado ato político.

Indignados, os PMs queriam prender e bater. Retraídos, os dois emboladores de coco, não sabiam o que dizer. Acossados, talvez se vissem transformados em paladinos da liberdade de última hora.

Com demais integrantes da caravana, procurávamos mediar e contornar a situação sem saber, exatamente, o que houvera. Até que, acalmados animos, fomos cientificados do teor da denúncia e do porquê da tentativa de prisão.

Os dois PMs faziam a habitual ronda na praça, ficaram injuriados quando ouviram pelo alto falante, em alto e bom som, a troco de nada, os desastrados emboladores de coco xingando suas mães.

Contornado o problema, a caravana seguiu para Natal.

De repente, percebíamos que tudo que cheirasse repressão era tratado com desdouro e ironia por parcela daqueles poetas populares. Abriam os pulmões e soltavam a voz com a altivez de quem defende a liberdade.

Ainda não compreendiam plenamente o significado da anistia, porém respiravam novos ares.

Deram significativa contribuição à popularização da luta pela anistia em várias partes do Brasil. Transformaram-se em seus arautos no meio de contingentes populacionais quase inacessíveis aos militantes e componentes dos Comitês pela Anistia.

Dedicado a Braulio e Inês Tavares, bem como a todos cantadores que contribuiram generosamente com a luta pela anistia, ampla, geral e irrestrita.