ARTIGOS

10 de fevereiro de 2014

Em defesa da EBSERH

Alberto Ramos


Pretendendo escrever um artigo em defesa da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), procurei como sempre faço, aprender acerca do assunto. Para tanto, li o regimento da empresa disponível emhttp://ebserh.mec.gov.br/images/pdf/regimento_interno/Regimento%20interno_ebserh.pdf

Li também os textos do Ex-reitorThompsomMariz disponível em http://www.ufcg.edu.br/prt_ufcg/assessoria_imprensa/mostra_noticia.php?codigo=15890 e o texto do atual reitor José Edilson disponível em http://www.ufcg.edu.br/prt_ufcg/assessoria_imprensa/mostra_noticia.php?codigo=15859

Infelizmente, à medida em que fui lendo, fui me convencendo do contrário.

No regimento da EBSERH, chamou-me a atenção os parágrafos segundo e terceiro do artigo 46, que tratam da escolha da direção do hospital. Segundo o que lá está, o superintendente e demais diretores serão selecionados pelo reitor. Não existe menção ao tempo de mandato.

Imediatamente me lembrei dos anos de chumbo. Quando cheguei ao HU ainda era tempo da ditadura militar. O diretor era escolhido por algum político ligado ao partido que estivesse no poder.

Pois bem. Eu era na época coordenador da Residência Médica, cargo não remunerado para o qual fui escolhido por eleição entre os residentes e preceptores do hospital (tenho um magnetismo inexplicável para cargos não remunerados – atualmente estou em um).

Um não tão belo dia procurei o então diretor levando uma série de reivindicações, entre elas, reclamar porque pelo menos quatro plantonistas do quadro de médicos do hospital estavam abandonando os plantões. Quando tinha residente de plantão este assumia, prática esta, proibida pelo CRM e pela legislação do serviço público. O residente assumia para evitar o mal maior que era o hospital ficar sem nenhum médico.

O diretor argumentou que os médicos citados eram seus amigos e que não iria tomar medidas disciplinares contra os mesmos. Pedi ao menos que os advertissem verbalmente. Ele se negou.

Já quase sem argumentos, lembrei ao diretor o compromisso que nós (ele particularmente) servidores públicos, tínhamos com a população e com os nossos colegas servidores e residentes. Ele então pôs ponto final na discussão dizendo: “o único compromisso que tenho é com o Dr.XYZ, político do partido ABC, que me colocou neste cargo”.

Tenho medo que o mesmo aconteça de novo, uma vez que em aderindo a essa empresa, os nossos diretores só terão compromisso com quem os indicou. Nenhum com os pacientes nem com a comunidade como é nosso caso.

Não pretendo voltar aos anos de chumbo. Já assisti este filme e não gostei.

Outro problema com a empresa é a centralização. Eles colocam isto como uma vantagem uma vez que comprando para muitos hospitais ao mesmo tempo, barateiam os preços dos equipamentos. Infelizmente a coisa não é tão cartesiana.

Por exemplo. Precisávamos trocar nosso aparelho de RX por um mais moderno. Não precisava ser o top do top. Algo compatível com as necessidades do hospital.

Pois bem, nos mandaram um aparelho da Siemens extremamente moderno, e repleto de funções extras. Tão repleto que ficou grande demais. Tão grande que até o momento em que escrevo estas mal traçadas ainda não conseguimos colocá-lo dentro da sala para onde estava destinado, apesar dos esforços conjuntos de engenheiros do HU, da UFCG e da Siemens. O monstrengo está há pelo menos 5 anos do lado de fora da sala, inútil, servindo apenas como um monumento à centralização de compras.

A seguir li o artigo do professor Thompsom.

Nele, o ex-magnífico comete pelo menos 3 agressões:

A primeira agressão, a menos grave, é contra a biologia quando compara os que são contra a EBSERH aos morcegos. Eu acho que o ex-magnífico queria nos atacar. No entanto, no seu desconhecimento da biologia nos elogiou por ignorar que dentre as quase 1.000 espécies de morcegos apenas 3 são hematófagas. A imensa maioria é extremamente útil ao ecossistema pois são grandes controladores de insetos. Algumas espécies ingerem 200 ou mais insetos em apenas alguns minutos de vôo. Também são responsáveis pela formação de florestas. Ao ingerir um fruto, deixam cair as sementes em locais distantes do original, onde poderão nascer novas árvores. Mais de 500 sementes podem ser transportadas por um único morcego a cada noite. Ajudam na reprodução de mais de 500 espécies de plantas, visitando as flores como fazem de dia os beija-flores e abelhas, transportando o pólen de flor em flor. Fonte Wikipédia.

Eu acho que os que somos contra a EBSERH merecemos o elogio. Afinal assim como os morcegos, estamos contribuindo para o florescimento (do conhecimento e da verdade no nosso caso) e do extermínio da pragas (o que deveríamos fazer na UFCG).

A segunda, mais grave, é quando ataca o vernáculo.

Dizer que “que tentam barrar a recuperação do Hospital Universitário Alcides Carneiro (HUAC), que está na UTI a cerca de três anos” é uma agressão à última flor do Lácio incompatível com a qualificação que esperamos de um ex-reitor. Quando queremos falar em tempo, usamos o verbo haver. No caso, o correto seria dizer que o HUAC está na UTI há cerca de 3 anos.

O pior, para eles, é que não está.

A terceira, gravíssima, é a agressão  a verdade.

Nesta mesma frase infeliz o ex-magnífico conseguiu errar duas vezes. O HUAC, apesar dos ingentes esforços do professor Thompsom e de seu sucessor, não está na UTI.

Cito apenas alguns exemplos de como estamos progredindo. Ainda muito longe do que almejamos. Mas progredindo.

 

1.Número de consultas médicas–Em Fevereiro de 2013 fizemos 5.811 atendimentos ambulatoriais no CAESE. Gradativamente conseguimos incrementar o número de consultas e em Novembro este número foi 8.416. Todos os números que citarei a seguir se referem a 2013 e sempre aos meses de Fevereiro e Novembro. Excluí Janeiro e Dezembro por serem atípicos e não exprimirem a realidade do restante do ano, principalmente Janeiro. Por exemplo o número de atendimentos em Janeiro foi de3.919 eo de Dezembro 7.274. Todos os números citados estão disponíveis no setor de estatística do HUAC e provavelmente na Secretaria de Saúde para onde mandamos nossa produção.

 

2.Número de outros atendimentos–no mesmo período tivemos aumentos expressivos de alguns procedimentos. O número de Eletrocardiogramas aumentou de 775 em Fevereiro para 981 em Novembro. As pequenas cirurgias aumentaram de 91 ao mês para 146 e os Eletroencefalogramas de 91 para 148. Ainda é muito pouco para atender Campina Grande e as cidades que nos referenciam mas conseguimos esse feito apesar de não termos aumento de pessoal nem de recursos.

 

3.Variação nos índices hospitalares – também conseguimos progredir bastante nos tópicos que medem o desempenho do hospital. Nossos pacientes demoravam em média 15,9 dias no primeiro trimestre. No quarto este número tinha sido reduzido para 9,09. Ou seja resolvemos os problemas do paciente(cura, tratamento encaminhado, diagnóstico realizado para tratamento ambulatorial, etc.) em quase metade do tempo. Nossa taxa de mortalidade na Clínica Médica que era 2,83% foi reduzida para 1,54% no quarto trimestre.

 

4.Procedimentos de alta complexidade – a maior causa de morte em nossa cidade são as doenças cardiovasculares. Atualmente os melhores tratamentos invasivos para tais doenças são a angioplastia e a cirurgia cardíaca de revascularização, conhecida como ponte de safena. Estes procedimentos, além de salvarem vidas são bem remunerados pelo SUS. Por conta disto, uma das diretorias que nos antecedeu, conseguiu o equipamento necessário para estes procedimentos e o credenciamento junto à secretaria de saúde do município. Infelizmente este credenciamento era provisório e durou muito pouco. Ainda na administração municipal passada, sem nenhuma justificativa fomos descredenciados. Quando da nova administração municipal reencaminhamos o processo de credenciamento para a secretaria. Após alguns meses, como não obtivemos resposta arguimos a Senhora Secretária. Esta informou que nunca tinha recebido a mesma e nos orientou a reencaminharmos novamente. Assim o fizemos. Fomos visitados por uma comissão de auditores da secretaria de saúde do município que, após assistir um procedimento por nós realizado(não precisa dizer que temos a melhor equipe da cidade), deu o sinal verde. Alguns meses depois, apesar de não recebermos nenhuma resposta oficial, em um encontro por outros motivos, cobramos uma resposta da Senhora Secretária. Esta nos disse que encaminhássemos novo ofício porque não sabia onde estava o primeiro (???). Assim o fizemos. Após alguns meses, tivemos a resposta que o nosso alvará da Hemodinâmica estava vencido(venceu enquanto trafegávamos pelos corredores Kafkianos da secretaria de saúde). Que deveríamos procurar a Anvisa para nova vistoria visando conseguirmos o bendito alvará. Contatamos a Anvisa que(isso aconteceu no início de 2013)apesar de ter feito 3 vistorias no HUAC, não se dignou em nenhuma dessas vezes a vistoriar a Hemodinâmica. Apesar de termos pedido ajuda ao ex-magnífico, ao atual magnífico e a Senhora Secretária, deles só obtivemos promessas. Não cumpridas, é óbvio.

Isso é revoltante. Comportamento criminoso. Quem deveria estar contribuindo para salvar vidas está pelo menos se omitindo.

Temos o equipamento extremamente moderno, temos uma equipe de primeira qualidade, a cidade precisa do procedimento e nós não conseguimos dar esse passo em direção a modernidade.

Seria bom para as finanças do hospital e ótimo para todos os que precisam do procedimento. Todos esses números e fatos estão à disposição dos que quiserem confirmar estes dados ou se aprofundar na análise.Dizer que que estamos na UTI é desconhecimento ou má fé, ambos imperdoáveis a quem já foi o dirigente máximo da instituição.

Quanto ao artigo do atual magnífico, após algumas platitudes, também contém uma quantidade inaceitável de sofismas, mendazes, distorções e logros. Queixa-se que os que são contra a empresa impedem o diálogo.

Ele reabre o diálogo citando a situação extremamente complicada do curso de medicina de Cajazeiras que não tem hospital universitário e que, em aderindo a EBSERH, este hospital seria construído. Apela para o nosso sentimento de solidariedade com os professores, funcionários e alunos do curso de medicina de Cajazeiras.

Acontece que não temos culpa dessa situação.

Quando houve um simulacro de discussão dentro da UFCG sobre a localização do novo curso de medicina da UFCG, os poucos que conseguimos falar fomos contra.

A cidade de Cajazeiras está situada a 134 Km de Barbalha onde tem um curso público de medicina. Andando mais 12 Km você pode se matricular em um curso de medicina privado na cidade de Juazeiro do Norte.

Ou seja. Na região já existia uma pletora de cursos de medicina. Além disso a cidade não tinha hospital que pudesse ser utilizado. O que tem lá é uma casa velha que tem que ser derrubada para se construir o hospital. Porque não criar um curso em Patos ou Sousa (se queremos desenvolver o alto sertão) com a melhor relação custo-benefício? Além de nós, a comissão doMECque nos visitou também foi contra.

No entanto o reitor e seu vice da época, o atual magnífico, fincaram pé e criaram o curso em Cajazeiras. Agora que o mesmo se mostrou inviável sem o hospital e, para criar este hospital, o magnífico e o ex-magnífico querem nos sacrificar para salvar o curso de Cajazeiras.

 

Este é no fulcro da questão, o real motivo por trás de tudo. Apenas uma questão político-eleitoreira.

Se o intento do ex-magnífico era o de criar as bases para a sua candidatura a deputado, junto com os outros políticos do seu partido(não sei qual é),que resolva este imbróglio criado pela sua teimosia e ambição.

E o atual magnífico não deveria se prestar a usar tão digno cargo para contribuir para as ambições político-eleitoreiras do ex. Além disso tudo, temos motivos para desconfiar da palavra do magnífico. Ele votou contra a adesão ao EBSERH antes de ser reitor, quando era candidato. Depois de eleito quer votar a favor.

Parece aquela música do Rappa, Candidato Caô que diz:

- Meu irmão se liga no que eu vou lhe dizer

hoje ele pede seu voto, amanhã manda a polícia lhe bater ...“

Ao assumir ele falou para mim e para a Dra. Berenice, superintendente do HUAC, que só abriria essa discussão novamente se aparecesse algum fato novo. Não apareceu e ele abriu. Agora já disse em alto em bom som que se os Conselhos Superiores do HUAC e da UFCG forem contra, ele assina à revelia.

O nosso magnífico está mostrando que tem o seu perfil de ditadorzinho. E um ditadorzinho que muda de opinião a cada instante. Parece que algum titereiro o comanda. Imaginem ele (ou o titereiro) com o diretor do HUAC no bolso do casaco. Se ele prometer que será democrático em nomear os diretores, vocês acreditariam?

Resumindo.

Estamos diante de dois candidatos a ditadores, incompetentes, aproveitadores e carreiristas que tentam nos impingir algo que não queremos, que vai beneficiar uns poucos (eles e seus seguidores)e trazer malefícios para muitos.

Por tudo isso somos contra. E lutaremos contra esta ditadurae esse candidato a ditador.O reitor, com os poderes que tem pode até nos quebrar. Não vai conseguir nos dobrar.