I Conferência Antifascista propõe frente internacional contra a extrema direita
Publicado em 10 de Abril de 2026 às 09h43.Atualizado em 10 de Abril de 2026 às 13h07
A cidade de Porto Alegre (RS) ocupou papel central na articulação da resistência global com a realização da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, entre os dias 26 e 29 de março. O evento foi um marco na articulação contra a ascensão da extrema direita e do neofascismo não só no país, mas em todo o mundo.

A Conferência, que contou com o apoio central e a participação do ANDES Sindicato Nacional, reuniu mais de 4,5 mil ativistas, lideranças políticas, intelectuais e representantes de movimentos sociais, sindicais e estudantis, vindos de mais de 40 países de cinco continentes.
O início da jornada foi marcado pela força das ruas. Na noite do dia 26, milhares de pessoas marcharam pelo Centro Histórico da capital gaúcha com palavras de ordem contra o imperialismo, pela autodeterminação dos povos indígenas, além de cartazes que denunciavam o genocídio na Palestina e o autoritarismo na América Latina.

Mais cedo, na Assembleia Legislativa do Estado, o Fórum de Autoridades Antifascistas debateu o papel e os limites da ação institucional, destacando que o fascismo contemporâneo se alimenta da desigualdade, do ódio e da desinformação, exigindo não só a defesa da democracia formal, mas a construção de uma democracia econômica.
Crise do capitalismo
No dia 27, a 1ª Conferência “A Ofensiva da Extrema Direita no Mundo: Causas, Consequências e Desafios” analisou que a escalada neofascista está ligada à crise do capitalismo e ao esgotamento de décadas de políticas neoliberais. A precarização das condições de vida, o aumento das desigualdades e a disseminação da desesperança criaram um terreno fértil para discursos autoritários.

A 2ª Conferência destacou a experiência argentina sob o governo de extrema direita de Javier Milei, apontando o país como um “laboratório” de reorganização capitalista. Foi ressaltado o protagonismo das mulheres nas mobilizações de 24 de março, que levaram 1 milhão de pessoas às ruas, e a importância da unidade entre diferentes forças políticas para construir alternativas populares.
Já a 3ª Conferência do dia tratou da resistência sindical e da organização da classe trabalhadora frente ao neoliberalismo, enquanto a 4ª Conferência abordou o caso brasileiro, destacando o bolsonarismo como expressão local de um fenômeno global. As análises indicaram a permanência de estruturas autoritárias herdadas da ditadura empresarial-militar e a articulação entre extrema direita, milícias e interesses imperialistas.
Encerrando o dia, a 5ª Conferência reforçou a centralidade da solidariedade entre os povos e da luta anti-imperialista. Foram denunciadas as intervenções militares, sanções econômicas e tentativas de desestabilização de países que buscam caminhos soberanos. Nesse contexto, Cuba, Irã e Venezuela foram citados como exemplos de resistência.
Atividades autogestionadas
No dia 28, pela manhã, o ANDES-SN promoveu atividades em sua sede na Regional do Rio Grande do Sul. Os debates abordaram temas como feminicídio, transfeminicídio e os impactos do imperialismo na América Latina, reforçando a importância de compreender as múltiplas dimensões da violência da extrema direita.

A mesa “Feminicídio e Transfeminicídio como resultado do projeto da extrema direita no Brasil e na América Latina”, contou com a participação das diretoras do ANDES-SN, Letícia Carolina Nascimento, 2ª vice-presidenta, e Emanuela Rútila, 2ª vice-presidenta da Regional Nordeste II, ambas do Grupo de Trabalho de Política de Classe para as Questões Étnico-raciais, Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) do Sindicato.
Em suas falas, as docentes situaram a violência contra a mulher nas esferas doméstica e institucional, denunciando a “pedagogia da agressão” da machosfera e o papel das big techs na monetização do ódio. Complementando a análise, foi criticado o silenciamento das pautas de gênero e raça sob a pecha de “identitarismo” e as táticas globais como o pânico moral, além do “pinkwashing“, entendido como uso instrumental de pautas LGBTI+ por agendas geopolíticas e pelo mercado.
“As discussões ressaltaram os desafios nas instituições educativas, exemplificados por casos de misoginia organizada em institutos federais e pela violência institucional, o que exige a criação de redes de autodefesa e protocolos rígidos contra assédios. A atividade definiu o fortalecimento do GTPCEGDS nas seções sindicais e a luta pela regulamentação das plataformas digitais, reafirmando que a unidade da classe trabalhadora deve ser construída como uma síntese viva das diferenças, fundamental para o enfrentamento ao fascismo e a superação das opressões”, avaliou Luciana Henrique da Silva, 1ª vice-presidenta da Regional Pantanal, que esteve na mesa.

Já no segundo debate “Os ataques imperialistas na Venezuela e os impactos na América Latina”, houve a participação de Maria de La Luz, da Rede Social para a Educação Pública nas Américas (Rede Sepa), que dividiu a mesa com o professor Osvaldo Coggiola, 2º tesoureiro da Regional São Paulo do Sindicato Nacional. A discussão se expandiu para além da fronteira venezuelana, abrangendo o bloqueio a Cuba, a ascensão da extrema direita no continente e os ataques aos direitos sociais em países como Argentina e Chile.
“Realizamos um debate qualificado com a categoria, culminando em contribuições diretas para a Carta de Porto Alegre. Saímos com o sentimento de missão cumprida e com o ANDES-SN consolidado na vanguarda da luta internacionalista e antifascista”, disse Caroline Lima, 1ª vice-presidenta e encarregada de Relações Internacionais do Sindicato.
Resistência palestina
Ainda no dia 28, a 6ª Conferência “A Resistência Palestina ao Genocídio e à Opressão do Estado de Israel” destacou essa luta como símbolo global contra o colonialismo e o fascismo. Foi denunciado o “educocídio” em Gaza e defendido o fortalecimento de campanhas internacionais de boicote.

Segundo Muna Muhammad Odeh, 2ª vice-presidenta da Regional Planalto do ANDES-SN e uma das palestrantes, a destruição deliberada de escolas e universidades em Gaza (o “educocídio”) é uma tentativa de apagar o futuro do povo palestino.
“A luta do povo palestino é o epicentro da luta contra o imperialismo. As universidades devem romper com a neutralidade cúmplice. Não há como falar em democracia e direitos humanos sem defender o fortalecimento de campanhas de pressão internacional e o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra as políticas de ocupação”, afirmou.
Já a 7ª Conferência debateu o combate ao fascismo nas Américas, destacando as conexões entre lideranças da extrema direita e enfatizando a necessidade de organização popular permanente.
Negacionismo climático
No dia 28, a 8ª Conferência “A Luta Contra o Negacionismo Climático e Pela Reforma Agrária no Contexto da Crise Ambiental” conectou a ecologia à luta de classes, reunindo intelectuais, militantes e ecossocialistas, que destacaram a urgência de um modelo econômico alternativo. Para as e os palestrantes, o capitalismo mostra-se incompatível com a sustentação da vida no planeta, aprofundando as desigualdades socioambientais e acelerando a crise climática.

“O debate afirmou um posicionamento político claro ao articular o combate ao fascismo com a denúncia do negacionismo climático e a defesa dos territórios e dos movimentos de luta pela terra. Além da necessidade de construção de uma sociedade ecossocialista, reafirmando que o enfrentamento ao fascismo passa, necessariamente, pela transformação estrutural das relações entre sociedade, economia e natureza”, declarou Annie Hsiou, 3ª vice-presidenta do ANDES-SN, debatedora da conferência.
Luta contra o fascismo
A 9ª Conferência “Antirracismo, Feminismo e Direitos Civis na Luta contra o Fascismo”, realizada na manhã do dia 29, debateu como o machismo, o racismo e a xenofobia são elementos estruturantes do projeto neofascista.

Letícia Carolina Nascimento, uma das debatedoras da mesa, denunciou o uso de “pânicos morais” — como a ideologia de gênero — para cooptar as massas. “O pânico moral é o laboratório do fascismo contemporâneo. Eles agitam espantalhos morais contra mulheres, negras/os e a população LGBTI+ para ocultar a real exploração do grande capital e o desmonte dos direitos sociais. O ataque a essas existências não é uma ‘pauta cultural’ secundária, mas o cerne de um projeto que violenta quem historicamente sustenta a base da classe trabalhadora”.
Educação, Ciência e Tecnologia
Os debates da 10ª Conferência “Educação, Ciência e Tecnologia para Soberania dos Povos” centraram na disputa pelo saber e como a extrema direita ataca a escola pública e a autonomia universitária para impor um modelo de obediência, exclusão e mercantilização do conhecimento

Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN e um dos palestrantes, reafirmou o orgulho de dirigir um sindicato cuja luta pela educação pública é indissociável da defesa dos interesses da classe trabalhadora.
Utilizando referências de Milton Santos, Mendonça criticou a forma como as big techs e os oligopólios de comunicação utilizam a tecnologia como instrumento de dominação e para instrumentalizar a violência contra as universidades. Ele enfatizou que derrotar o neofascismo exige o fortalecimento do orçamento das universidades públicas e a valorização das e dos trabalhadores.
Além disso, Mendonça defendeu que as instituições de ensino brasileiras rompam parcerias com o “Estado sionista de Israel”, mantenham a solidariedade internacional e enfrentem a lógica neocolonial e racista do imperialismo.
“O ANDES-SN defende que só iremos evitar essa catastrófica com muita luta, muita mobilização, respeitando as entidades legítimas da classe trabalhadora fruto da organização na base, mas, fortalecendo com orçamento e condições de trabalho nossas instituições de ensino”, disse.
A 11ª Conferência “Resistências, Articulações e Alternativas Democráticas” focou na construção de estratégias globais de resistência. A experiência colombiana, elegendo o presidente Gustavo Petro, foi citada como exemplo de unidade entre movimentos e partidos, sem abandonar a mobilização popular.
Lideranças europeias também aproveitaram para denunciar a cumplicidade da União Europeia com o genocídio em Gaza. O consenso foi de que a esquerda deve apresentar alternativas concretas e não temer a polarização.
Carta de Porto Alegre
A Carta de Porto Alegre, aprovada ao final da Conferência, afirmou a necessidade de unidade internacional diante do avanço do fascismo, da extrema direita e do imperialismo em um cenário de crise do capitalismo.
O documento denuncia ataques a direitos, à democracia e à soberania dos povos, além da intensificação de guerras, desigualdades e da desinformação. Como resposta, defende a articulação global das lutas, a ampliação dos direitos democráticos, a valorização do trabalho, a reforma agrária e a defesa do meio ambiente.
Entre as propostas, estão a criação de uma articulação internacional antifascista, a realização de conferências regionais, o apoio à causa palestina, à soberania de países como Cuba e Venezuela, o combate à OTAN e o fortalecimento de iniciativas como o Fórum Social Mundial.
Caravana do FNDC
Paralelamente, o ANDES-SN participou dos debates da Caravana do Fórum Nacional pelo Direito à Comunicação (FNDC), no dia 28. O enfrentamento às big techs e ao monopólio midiático, apontados como pilares da desinformação, foi tema das atividades “O papel da comunicação hegemônica a serviço do fascismo” e “Propostas para soberania nas comunicações”.

Diego Marques, encarregado de Imprensa e Divulgação do Sindicato Nacional, destacou como o avanço das plataformas digitais e o monopólio da informação impactam diretamente a categoria docente e a produção de conhecimento, alertando que a luta pela democratização da comunicação é indissociável da luta sindical.
Já na mesa “Propostas para soberania nas comunicações”, Helena Martins, 1ª secretária da Regional Nordeste I do ANDES-SN, destacou que o alcance das pautas depende do contexto histórico, lembrando que já se defendeu até a nacionalização das comunicações. Ela criticou o avanço da privatização e defendeu a construção de novos modelos.
Fotos: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN
Fonte: ANDES-SN –